domingo, 29 de maio de 2016

EXERCÍCIO 010

MIL E UMA NOITES

Ele dorme...
Semente.
O frio da noite o envolve de possibilidades.
Estrelas por colher.
Cometas por caçar.
Ser inteiramente futuro.

Ele dorme...
Ingênuo.
Ainda não sabe o quanto será corrompido.
O quanto será machucado, endurecido.
O quanto seu rosto será marcado.
O quanto tropeçará,
E o quanto será derrubado.
Eu sei.

Ele dorme...
Já não me lembro de dormir assim.
Meu sono ficou pra trás.
Certas viagens são vendidas com bilhetes só de ida.

Ele dorme...
Confiante.
Sabe, de algum modo sabe,
Que estou acordado.
Não devo nem posso lhe evitar as quedas,
Porque a Vida também é feita de quedas.
Mas meu braço sempre estará estendido.
E o meu olhar sempre estará firme.

Então ele dorme...

sábado, 14 de maio de 2016

EXERCÍCIO 009

BALANÇO

Minha riqueza não é dourada;
Minha riqueza é branca:
O branco dos meus cabelos.
Ainda são poucos, mas estou acumulando patrimônio.
Já não sou o que fui e ainda não sou o que serei.
No útero da Vida, infinitas possibilidades correm para o óvulo,
Mas apenas uma existência o fecunda.
Porém, há algo que nos liga:
Os Eus abortados vivem neste Eu concebido.
É incômodo e ao mesmo tempo doce pensar
Que poderia ter sido tudo, ou até nada,
Mas me torno exatamente isto.
Quando pequeno, queria ser grande.
Demorou alguns fios brancos para entender que
Pequeno e grande são palavras relacionais, não existenciais.
Já não procuro músculos no braço, mas nos olhos:
Começo a ver mais longe.
Um dia, ainda conquistarei o silêncio.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

EXERCÍCIO 008

Me veio, de repente, uma vontade de rasgar todas as palavras...

De repente, nenhuma delas me serve mais – logo a mim...

No (meu) princípio era o Logos – testemunhei o Verbo fazer-se carne...

Construí impérios de palavras...

Como argamassa, usei as reticências – as reticências são tentativas literárias de vencer a morte...

E agora, de repente, percebi ocos meus tijolos – um a um, esfarelei-os em meus dedos.

Experiência desorientadora – tudo que está e se vai desorienta.

Experiência orientadora – só no vazio se pode encontrar a completude.

E após esfarelá-los todos, me restou a mais prima de todas as matérias.

O silêncio.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

EXERCÍCIO 007

Terminício

O fim é uma coisa engraçada,
Porque muitas vezes ele não aparece no fim.
Aparece no meio,
Às vezes até no início.

Mas do fim o fim se esconde...

Eu vi com clareza o fim que estava no meio.
Fui atropelado pelo fim no começo, abrupto.
Mas não encontro o fim no fim.
Devo ser uma pessoa normal...

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

EXERCÍCIO 006

JARDIM DE SONHOS.

Numa manhã, acordei. Olhei. Fazia sol. Saí de casa. Dentro, deixei meu tesouro.

No mesmo instante, começou a chover – assim, de repente.

Voltei para casa. A porta, trancada por dentro. Minha chave já não servia. Fiquei preso, sem capa, sem guarda, na chuva.

E choveu. E choveu. E choveu. Choveu tanto que pensei que ia faltar água no céu.

Mas um dia, parou de chover – assim, de repente.

Eu ainda estava encharcado. Resfriado. Enfriorado. Com medo de trovões. Ninguém vê nada direito nessas condições...

Sem chuva, porém, minha roupa secou. O resfriado sarou. O frio esquentou. E os trovões... Bem, ainda tenho medo... Ninguém é perfeito.

Mas agora via melhor. Olhei para baixo e notei uma poça de barro e lodo. A chuva me tinha lavado da sujeira dos anos.

Agora podia correr. Agora podia plantar.

Olhei para a porta. Fechada. Lacrada. Selada. Dentro estava meu tesouro.

Reclamei. Implorei. Esbravejei. Trovejei.

Nada. A porta, ao contrário de mim, não tinha medo de trovões...

Então sentei. Quieto. Reto. Desperto. Liberto. Podia ir, mas... Dentro estava meu tesouro.

Não tinha a chave. Não podia entrar. Decidi plantar. Plantei. Plantei todos os meus sonhos ao redor da casa.

Se um dia a porta se abrir, vou levar o meu tesouro para passear no jardim.

Se nunca a porta se abrir, não se poderá dizer que foi por falta de sonhos.

sábado, 2 de novembro de 2013

EXERCÍCIO 005

O MISTÉRIO DA LUA

Pele branca, não se mostra todo o tempo.
Brinca de esconde-esconde com os que te admiram de baixo...
Prefere a noite, quando os fantasmas saem para dançar.
Mas ao te olhar profundamente nos olhos, uma pergunta me inquieta:

Se a noite é teu lugar, por que insistes em aparecer de dia?
Talvez porque não sejas inteiramente noturna?
Talvez porque debaixo de tua fotofobia
Exista um amor secreto pelo sol?

terça-feira, 22 de outubro de 2013

EXERCÍCIO 004

INDUBITÁVEL

Que me perdoem os razoáveis,
Mas eu quero discutir o óbvio,

Duvidar do evidente,
Questionar o indubitável,
Contradizer argumento,
Repensar o pensamento.

Quem venceu foi vencedor?
Quem perdeu foi derrotado?

O alto fica em cima?
O longe não chega perto?

Quem saiu foi traidor?
Quem ficou, abandonado?

Cultivo minhas dúvidas com esmero de artesão.
A profundidade sempre me foi superficial.