segunda-feira, 4 de novembro de 2013

EXERCÍCIO 006

JARDIM DE SONHOS.

Numa manhã, acordei. Olhei. Fazia sol. Saí de casa. Dentro, deixei meu tesouro.

No mesmo instante, começou a chover – assim, de repente.

Voltei para casa. A porta, trancada por dentro. Minha chave já não servia. Fiquei preso, sem capa, sem guarda, na chuva.

E choveu. E choveu. E choveu. Choveu tanto que pensei que ia faltar água no céu.

Mas um dia, parou de chover – assim, de repente.

Eu ainda estava encharcado. Resfriado. Enfriorado. Com medo de trovões. Ninguém vê nada direito nessas condições...

Sem chuva, porém, minha roupa secou. O resfriado sarou. O frio esquentou. E os trovões... Bem, ainda tenho medo... Ninguém é perfeito.

Mas agora via melhor. Olhei para baixo e notei uma poça de barro e lodo. A chuva me tinha lavado da sujeira dos anos.

Agora podia correr. Agora podia plantar.

Olhei para a porta. Fechada. Lacrada. Selada. Dentro estava meu tesouro.

Reclamei. Implorei. Esbravejei. Trovejei.

Nada. A porta, ao contrário de mim, não tinha medo de trovões...

Então sentei. Quieto. Reto. Desperto. Liberto. Podia ir, mas... Dentro estava meu tesouro.

Não tinha a chave. Não podia entrar. Decidi plantar. Plantei. Plantei todos os meus sonhos ao redor da casa.

Se um dia a porta se abrir, vou levar o meu tesouro para passear no jardim.

Se nunca a porta se abrir, não se poderá dizer que foi por falta de sonhos.

sábado, 2 de novembro de 2013

EXERCÍCIO 005

O MISTÉRIO DA LUA

Pele branca, não se mostra todo o tempo.
Brinca de esconde-esconde com os que te admiram de baixo...
Prefere a noite, quando os fantasmas saem para dançar.
Mas ao te olhar profundamente nos olhos, uma pergunta me inquieta:

Se a noite é teu lugar, por que insistes em aparecer de dia?
Talvez porque não sejas inteiramente noturna?
Talvez porque debaixo de tua fotofobia
Exista um amor secreto pelo sol?

terça-feira, 22 de outubro de 2013

EXERCÍCIO 004

INDUBITÁVEL

Que me perdoem os razoáveis,
Mas eu quero discutir o óbvio,

Duvidar do evidente,
Questionar o indubitável,
Contradizer argumento,
Repensar o pensamento.

Quem venceu foi vencedor?
Quem perdeu foi derrotado?

O alto fica em cima?
O longe não chega perto?

Quem saiu foi traidor?
Quem ficou, abandonado?

Cultivo minhas dúvidas com esmero de artesão.
A profundidade sempre me foi superficial.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

EXERCÍCIO 003

ESTADO DE ESPÍRITO

Hoje estou ponto.

Não vírgula.
Não reticências.

Certamente não exclamação.
Mas também não interrogação.

Não parênteses.
Não travessão.

Asterisco, nem pensar.
Ponto e vírgula, quase não se usa.

Dois pontos, para os assertivos.
O trema é sedutor, mas não.

Til e circunflexo,
Não e não.

Não pingo,
Nem no jota, nem no i.

Ponto.

domingo, 20 de outubro de 2013

EXERCÍCIO 002

TREINADOR DE ACROBATA

Gosto de palavras,
São feitas para brincar.
Tal como acrobatas,
A poesia as faz saltar.

Lá de cima do abstrato,
Se lançam para o papel.
De potência se tornam ato
Por máquina, caneta ou pincel.

Muito sofre o escritor,
Com os giros que a palavra dá.
Ele, inútil, fez seu o labor

De tentar o salto adestrar...
Mas a palavra já encanta o leitor,
Com o simples ato de se jogar.

EXERCÍCIO 001

O PONTO INICIAL

Depois de tentar várias coisas,
Percebi que hoje não escreveria nada.

Sei lá o que é que passa
Com essa coisa
Chamada palavra.
Tem vontade própria,
Aparece, desaparece
Onde quer,
Quando quer.

Felizmente, algo sei:
Elas têm seu tempo.
Seu ritmo,
Seu espaço.

Engana-se o escritor que pensa que as escolhe.
Não escolhe!
Elas se mostram conforme se sintam à vontade.

Para acessá-las, deve-se colocar o ego de lado,
Perder a ilusão do controle,
Perder a ilusão do poder,
Perder a ilusão da decisão.

O escritor não escreve.
A Escrita acontece por meio dele.
O escritor é um instrumento da Escrita.
Ter essa consciência é o ponto inicial.

E hoje, depois de tentar várias coisas,
Percebi que não escreveria nada.